Carcinicultura longe do mar: pesquisa testa viabilidade de criar camarão marinho no interior de São Paulo

Uma pesquisa em Jaguariúna, no interior paulista, a cerca de 200 km do litoral, busca provar que é possível criar camarão marinho com rentabilidade longe do mar. Conduzida pelo zootecnista e criador Fábio Sussel, do Instituto de Pesca (IP), a iniciativa faz parte de uma Parceria Público-Privada (PPP) com a Eden Farm, empresa que distribui camarão premium em São Paulo, e conta com apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa Agrícola (Fundag).

O principal desafio do cultivo em tanques fechados é a Síndrome da Mionecrose Infecciosa (NIM), causada por um vírus que pode levar a perdas superiores a 80% em alguns ciclos. Diferentemente de peixes como tilápias e salmões, camarões não desenvolvem memória imune adaptativa e não há vacinas disponíveis.

Para tentar controlar a doença, Sussel utiliza água salinizada artificialmente — que imita o balanço iônico dos seis sais marinhos — e nunca a troca, tratando-a biologicamente por filtragem. O pesquisador também emprega probióticos na água e na ração, imunoestimulantes e manejo nutricional rigoroso. “O segredo é achar o equilíbrio entre o patógeno e o hospedeiro”, afirma.

A densidade de cultivo é outro ponto crítico. Nos tanques de 100 metros cúbicos, são colocados 500 camarões por metro quadrado, enquanto no Nordeste, em viveiros escavados, a densidade varia de 10 a 15 por m². Essa alta concentração aumenta o risco de surtos virais, mas é necessária para a viabilidade econômica. Quando a doença não se manifesta, a sobrevivência chega a 80%, gerando bom lucro; quando aparece, cai para 24%, inviabilizando o negócio.

Inicialmente, os camarões eram abatidos após 200 dias com peso de 17 gramas para consumo final. Atualmente, o crustáceo é vendido como isca viva (5 a 6 gramas) para pesca esportiva de robalo, ciclo de apenas 100 dias, mais rentável. Para amortizar custos, Sussel passou a realizar eventos técnicos e gastronômicos na fazenda, ensinando abate humanitário e preparo, além de treinamentos corporativos.

O pesquisador destaca que a qualidade do camarão depende do abate e da conservação. “Congelar camarão de má qualidade produz camarão congelado de má qualidade. Quando a cadeia do frio é bem feita, o camarão é adocicado e saboroso”, explica.

A maior parte do cultivo de camarão no Brasil (99,7%) está no Nordeste, onde já se aproveitam águas salobras a mais de 100 km do mar. O país produz 260 mil toneladas anuais de camarão cultivado, mais 60 mil toneladas da pesca extrativa, segundo dados da ABCC e do Instituto de Pesca.

Deixe um comentário

Powered by Joinchat
Anunciar grátis