Produtores de cacau estão se reinventando para mitigar os impactos de um possível novo choque de custos provocado pelo fenômeno El Niño. A empresária Arcelia Gallardo, proprietária da marca Mission Chocolate, acredita que as novas áreas de cultivo de cacau devem servir como contraponto às questões climáticas. “No Equador, os produtores plantaram milhares de pés de cacau há quatro anos porque eles estavam entendendo o que iria acontecer. Por causa dos efeitos do clima, agora temos cacau também em São Paulo”, disse. “Onde antes não tinha cacau, agora tem”.
Arcelia Gallardo, filha de agricultores mexicanos e nascida na Califórnia, trabalha com produção “bean-to-bar” — ou seja, compra cacau para produzir barras de chocolate em sua fábrica em São Paulo. Com o aumento vertiginoso dos preços do cacau no fim de 2024, a Mission alterou fórmulas e lançou versões menores de seus produtos, estratégia adotada para absorver o aumento dos custos. “Mas fizemos isso sem interferir na qualidade do produto”, afirma. “Conseguimos pensar em outros produtos que poderíamos fazer, como confeitos banhados em chocolate, que deram muito certo”. Com isso, foi possível não repassar ao consumidor toda a alta das cotações da amêndoa.
Para driblar uma eventual nova onda de encarecimento da matéria-prima, a chocolatier aposta em produtos da linha “cookies”, que utilizam menos chocolate, e nos itens banhados. Henrique de Almeida, produtor de cacau e dono da marca de chocolate Fazenda Sagarana, cultiva 63 hectares em Coaraci, no sul da Bahia. Segundo ele, produzir a matéria-prima protegeu seu produto de reajuste de preços nos últimos anos, mesmo em um momento em que as cotações da commodity alcançaram recorde. Almeida produz chocolate “tree-to-bar”, ou “da árvore à barra” — ou seja, controla a produção em todas as etapas, do cultivo do cacau à barra de chocolate que chega ao consumidor.
A ameaça do El Niño faz com que o produtor reviva experiências da década passada. “No El Niño de 2015, faltou chuva no sul da Bahia entre junho e agosto. Se, a partir de setembro, outubro, essa condição acontecer, teremos impacto sobre a safra temporã de 2027”, diz ele. A diretora de marketing de chocolates da Nestlé, Paula Munhoz, afirma que a melhor maneira de evitar quebras de safra é preparar os produtores fornecedores. Segundo ela, a multinacional fomenta boas práticas entre produtores parceiros, como melhoria na gestão da água, distribuição de mudas com alto potencial produtivo e poda correta. A Nestlé compra 40% de todo o cacau produzido no Brasil e tem 6,5 mil fazendas parceiras no país.