Com a ajuda de óculos inteligentes que criam imagens de uma fábrica de chocolate em realidade virtual, trabalhadores agora podem treinar à distância o passo a passo de todas as etapas que transformam as amêndoas do cacau em um dos doces mais queridos do mundo. Desenvolvidos na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), de Ilhéus (BA), os óculos também contam com uma inteligência artificial chamada de “Guia Cacau”, uma espécie de instrutor virtual que conversa com o usuário.
“Quando a pessoa [que está usando os óculos] fala algo, o sistema primeiro transforma a fala em texto, depois interpreta o que foi dito e responde por voz. Esses três passos acontecem em poucos segundos, dando a impressão de um diálogo natural”, diz Amanda Oliveira, doutoranda em Modelagem Computacional pela UESC. Oliveira e sua equipe apresentaram a tecnologia na Expocacau 2026, feira voltada ao setor realizada em Ilhéus (BA) no fim de agosto.
Segundo ela, o que torna esse assistente diferente de um chatbot comum é que ele “enxerga” o que o usuário está fazendo na realidade virtual. O “Guia Cacau” sabe se a pessoa já visitou determinada área da fábrica, se manipulou o equipamento correto e em que etapa do treinamento está. “Isso evita que ele dê instruções fora de contexto ou confirme algo que não aconteceu na simulação”, explica.
A tecnologia pode substituir o tutor na hora do treinamento de novos funcionários. “O gestor não precisa parar seu melhor operador para treinar pessoas. Isso gasta tempo e reduz a chance de prejuízos com danos em equipamentos”, afirma. Além disso, os funcionários são submetidos aos riscos apenas de forma virtual para ver se têm aptidão para aquela função.
A UESC também desenvolveu uma realidade virtual para a cabruca — sistema de cultivo no qual os cacaueiros crescem à sombra das árvores da Mata Atlântica. O projeto teve apoio financeiro do Edital Incite, da Fundação de Amparo à Pesquisa da Bahia (Fapesb) para a compra dos equipamentos e desenvolvimento da tecnologia. Atualmente, o projeto conta com uma bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Agora, a equipe de pesquisadores busca indústrias de chocolate interessadas na tecnologia. Segundo Oliveira, o modelo se baseou em fábricas artesanais de chocolate, mas já estão sendo desenvolvidos ambientes virtuais de uma indústria de médio porte a partir de manuais dos maquinários usados por esse tipo de empresa. “Toda essa tecnologia já funciona no que temos hoje. Quando finalizarmos a nova etapa, vamos retreinar a IA no novo ambiente.”
O projeto busca romper um dos gargalos da cadeia do cacau, que é a carência de tecnologia. Diferentemente de setores como o de grãos, onde há muitos produtores tecnificados, o cultivo de cacau no Brasil é concentrado entre pequenos produtores — segundo o IBGE, há 93 mil cacauicultores no país, a grande maioria agricultores familiares.
Para Vitor Stella, coordenador técnico da CocoaAction Brasil, o setor de cacau precisa de inovações, sobretudo em técnicas de manejo adequadas à realidade do pequeno produtor. “Mais tecnologia no campo significa maior produtividade e eficiência e, consequentemente, maior potencial de gerar renda”, afirma.