O whey protein, subproduto da fabricação de queijo, está provocando uma transformação profunda na indústria de lácteos. Antes pouco valorizado, o soro do leite se tornou um ativo cobiçado, impulsionado pela crescente demanda por alimentos ricos em proteína.
O Brasil, embora seja um grande produtor de leite — mais de 35 bilhões de litros por ano, segundo o IBGE — ainda depende fortemente de importações de ingredientes lácteos como o WPC (Whey Protein Concentrado) e o WPI (Whey Protein Isolado). No entanto, novos investimentos prometem mudar esse cenário.
Segundo a consultoria StoneX, os preços desses ingredientes dispararam. O WPC80, por exemplo, quase triplicou de valor nos EUA, passando de US$ 10 mil a tonelada no início de 2025 para US$ 28 mil em agosto de 2026. O WPI subiu 47%, chegando a US$ 32 mil. Já o WPC34 teve alta de 40%.
“Foi uma combinação entre uma demanda que se acelerou e uma oferta que não conseguiu acompanhar esse aumento”, explica Juliana Torres Santiago, analista da StoneX. A procura por produtos saudáveis cresceu desde a pandemia e ganhou força com o uso de canetas emagrecedoras, que estimulam o consumo de proteínas.
Hoje, as proteínas de alto valor estão presentes em barras, bebidas lácteas, snacks, chocolates, pães e até vinhos e cervejas. Cerca de 70% do WPC80 e do WPI consumidos no Brasil são importados, e o produto chega ao país custando em torno de R$ 160 mil a tonelada.
Empresas como a Tirolez, uma das principais fabricantes de queijos, já veem no soro uma oportunidade. “Há um descompasso entre o crescimento da demanda por proteína concentrada de soro e o crescimento da disponibilidade de soro como subproduto da produção de queijo”, afirma Marcel de Barros, CEO da Tirolez. A empresa adquiriu recentemente uma planta em Governador Valadares (MG) com capacidade de processar 480 mil litros de soro por dia.
A Sooro Renner, uma das poucas produtoras nacionais de proteínas de alta concentração, planeja dobrar sua capacidade com uma nova fábrica em Francisco Beltrão (PR), com investimento superior a R$ 1 bilhão. A produção deve começar no segundo semestre de 2027. “Antigamente, o whey era considerado um produto só para ‘marombados’. Mas notamos que a pessoa que queria ter um estilo de vida mais saudável também precisaria consumir mais proteína”, diz Eduardo Serra, CEO da Sooro Renner.
A francesa Lactalis também aposta no mercado, com uma fábrica integrada de queijos e WPC em Três de Maio (RS). “O consumo per capita de proteína do leite nos Estados Unidos ainda é bem maior que o do Brasil. Então acreditamos que aqui esse mercado vai continuar crescendo”, observa Guilherme Portella, diretor da Lactalis Brasil.
O mercado de bebidas proteicas movimenta atualmente cerca de 80 milhões de litros por ano, segundo a consultoria MilkPoint, sinalizando um futuro promissor para o setor.